Congresso mantém vetos ao Ato Médico

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Os Normais *por Wagner Waltenberg

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Publicado originalmente em “2001″ no Diário da Amazônia

“Se o sujeito é tímido e você forçar um pouquinho, ele pode ser enquadrado na categoria de fobia social. Se ele tem uma mania, leva um diagnóstico de transtorno obsessivo compulsivo. Se a criança está agitada na escola, podem achar que esta tendo um transtorno de atenção e hiperatividade. Coisas normais na vida estão sendo encaradas como patologias”.

Estas e muitas outras frases picantes estão contidas na entrevista dada pelo psiquiatra carioca Jorge Alberto Costa e Silva, ex-Diretor de Saúde Mental da Organização Mundial de Saúde, a uma revista semanal brasileira. Em síntese , o psiquiatra acusa a indústria farmacêutica de cuidar muito mais de sua saúde financeira do que dos pacientes, e órgãos responsáveis pela produção de diagnósticos, por aquilo que classificou de indústria do diagnóstico.
Realmente um verdadeiro arsenal de medicamentos e um não diferente arsenal de diagnósticos detém hoje a psiquiatria e a psicologia moderna, e pelo menos em parte, graças a Deus. Não podemos deixar de reconhecer os benefícios da revolução psiquiátrica e psicofarmacológica. A cada dia que passa, encontramos menos “Napoleão Bonaparte”, “Jesus Cristo”, gente com coceira no cérebro, muito embora alguns ainda continuem sendo abduzidos por Ets e outros acreditando em certos políticos. 

Mas a produção de diagnósticos tem sido tão grande que poderíamos sem muitos questionamentos, classificá-las de maníacas. O célebre Simão Bacamarte personagem de Machado de Assis com certeza teria orgasmos ao ler o DSM IV, uma espécie de catalogo telefônico dos transtornos mentais.
A fobia é hoje travestida de Sindrome do Pânico. As antigas neuroses obsessivas viraram os transtornos obsessivos compulsivos, e as oscilações de humor do dia a dia, se observadas em close, passaram a receber o péssimo apelido de transtorno bipolar. O olhar crítico e a tentação sádica em diagnosticar, não deixariam passar num psicotécnico nem mesmo a mãe natureza. Alguém, com certeza não hesitaria em diagnosticar de transtorno bipolar o movimento de rotação da terra, já que de noite fica escuro e de dia fica claro, ou mesmo os dias de sol e chuva e quem sabe até o sim e o não. De certa forma isso até já foi feito, os antigos costumavam crer que raios e trovões eram a ira dos Deuses e pelo menos metaforicamente, conseguiam ver aquilo que os químicos a serviço da vida não conseguem ver: que os transtornos podem ser expressões de amor, ódio ou derivados, ou simplesmente formas transitórias ou permanentes de se conduzir na vida.
A tendência humana em afastar desconfortos não é de agora. Os anestésicos são invenção antiga e o desejo de se livrar da dor, uma constante da civilização. E quanto mais artifícios se criam para exclusivamente anestesiar a dor, menor a possibilidade de se lidar efetivamente com ela. 
Uma das mais modernas e democráticas contribuições à filosofia das psicopatologias, diz respeito a um tal  “bom funcionamento interno”. Ou seja, um indivíduo seria considerado “normal” a partir do instante em que funcionasse bem internamente e respeitasse os limites negociados pela sociedade; apesar de suas esquisitices. Essa seria uma condição ideal, onde não haveria mais a necessidade social em lidar com seres idênticos ou quase robotizados, base de qualquer catálogo de distúrbio mental: se existe uma “norma”, azar daqueles que se afastam dela. Ou se tratam e tornam-se iguais aos “normais”; ou ficam excluídos com rotulações diversas. 
A esse respeito , ainda que sem a intenção principal de desmistificar a questão da norma, um verdadeiro manual de esquisitices tem sido exibido em horário nobre numa emissora de tv, me refiro ao seriado Os normais. 
Com histórias bem humoradas e repletas de manias, preconceitos, paranóias, implicâncias e nojos infundados, Luiz Fernando Guimarães e Fernanda Torres, com seus personagens, acabam efetivamente contribuindo para anarquizar um pouco do arranjo psicopatológico que tomou conta dos nossos tempos. O que esta em relevo no seriado, são as características específicas de cada um dos personagens, individualidade que nenhum manual de diagnóstico é capaz de descrever. Talvez , o sucesso deste seriado original ( em sua estréia o IBOPE registrou 27 pontos) onde se deixa de lado, os formalismos arranjados de uma realidade quase sempre maquiada, resida exatamente neste aspecto.
A clonagem emocional, essa espécie de robotização mental, vestígio de dificuldades da sociedade em lidar com a diferença, parece estar fadada a um gradual desaparecimento. Pelo menos é o que podemos perceber em relação às artes, em entrevistas como a aqui citada, alguns programas de televisão e principalmente a Psicanálise.
Vivemos hoje uma tendência à diversidade, um somatório de diferenças, momento onde as aparências ficam circunscritas a roupas , alegorias, e objetos de consumo quase sempre sustentados por uma beleza estética. Quanto ao humano, sua personalidade, seus desejos, suas aspirações, melhor se estiver pautado num modelo ético. Desta forma diminui-se a necessidade de enquadramentos, normatizações e as identificações poderão se limitar a uma expressão há muito conhecida: “pelo menos alguma coisa a gente tem em comum” (antigo slogan publicitário de uma marca de cigarros, que sobressaltava as diferênças entre as pessoas… e todos fumando o mesmo cigarro)

* O autor é psicanalista e redador de Notícias Impossíveis

Risco do fascismo voltar à Europa é ‘muito grande’, afirma psicanalista italiano

 Psicanalista Italiano Luigi Zoja

Jornal do Brasil

Igor Mello

Governantes, intencionalmente ou não, podem fazer sociedades inteiras se tornarem paranóicas. Essa é a principal mensagem que o renomado psicanalista italiano Luigi Zoja trouxe em sua palestra “Aspectos Coletivos da Paranóia”, realizada neste sábado, no Centro de Estudos e Pesquisas do Envelhecimentono, no Rio. O intelectual tira esta conclusão de seu mais recente livro, “Manhã de Setembro: o Pesadelo Global do Terrorismo”, no qual faz reflexões sobre o Estados Unidos pós-11/09.

Zoja vivia em Nova York quando dois aviões foram atirados por terroristas da Al Qaeda nas torres do World Trade Center, matando quase 3 mil pessoas:

“O mais preocupante, naquela situação, era a política do medo. De se eleger um inimigo e tentar exterminá-lo a todo custo. Nós, como psicanalistas, deveríamos dedicar mais atenção não ao fenômeno clínico da paranóia, mas sim na maneira como ela pode aprisionar as massas”, reflete.

Segundo o especialista, uma das constatações que o espantaram após os atentados terroristas foi a presença massiva de termos com óbvio caráter paranóico nos meios de comunicação de massa norte-americanos:

“O que me deixou com medo é o quanto eles usavam a palavra conspiração na política e na mída dos Estados Unidos. Os islâmicos viraram a grande ameaça, e o Iraque foi escolhido como bode espiatório. A paranóia tem isso, de apontar um inimigo e puní-lo, mesmo que haja apenas a suspeita. E o Iraque foi punido, mesmo que a acusação de manter um arsenal de armas de distruição em massa fosse mentira”, afirma.

Após o evento, promovido pelo Instituto Junguiano do Rio de Janeiro, o psicanalista concedeu uma entrevista exclusiva ao Jornal do Brasil:

JB: Entre os seus exemplos de influência da paranóia, está a crescente onda de nacionalismos e racismos na Europa. O senhor acha que há risco do facismo voltar a ser relevante?

Zoja: O perigo é muito grande. Na França, um terço dos operários, que historicamente votam em representantes socialistas, afirma que vai votar na candidata facista Marine Le Pen. E isso também é notado em outros países da Europa, com um despertar do racismo e dos movimentos anti-imigração. Como disse Régis Debray, A economia é global, mas os homens são tribais. Vivemos a era do localismo, algo ainda mais restrito que o nacionalismo.

JB: O senhor critica os meios de comunicação de massa por ajudarem a criar um clima de paranóia em diversos países. É possível mudar ou essa é uma característica inata deste tipo de comunicação?

Zoja: Os meios de comunicação de massa têm um tanto de paranóia. É bom lembrar que, até bem pouco tempo atrás, o povo da Inglaterra consumia os produtos de Rupert Murdoch em escala impressionante. Depois que os escândalos a respeito dele ganharam repercussão mundial, os ingleses ficaram paralizados, mas não querem saber mais sobre isso. Neste caso, nem foi uma paranóia política, mas sim de expor a vida do outro, espionar. Mas esses barões da mídia, desde o Século XIX, perceberam que é muito mais lucrativo oferecer esse tipo de informação supersimplificada, comercialmente falando.

JB: O senhor cita especificamente Hitler, Stalin e George W. Bush como exemplos de líderes paranóicos que acabaram contaminando uma grande parcela da população de seus países. É possível observar esse tipo de conduta mesmo em governantes que não sofrem deste tipo de transtorno?

Zoja: É difícil distinguir o quanto é interesse. Mas posso afirmar que o líder pode não ser paranóico, mas toda sociedade tem um potencial desse tipo. E muitas vezes as pessoas, por interesse, trabalham para despertar esse tipo de característica.

JB: A crescente tensão entre Israel e Irã talvez seja hoje a principal ameaça à paz mundial. A postura de Benjamin Netanyahu, que incentiva seguidamente às potências ocidentais a apoiarem um ataque preventivo, também pode ser encarada sob a sua ótica?

Zoja: A ideia de ataque preventivo, por si só, é paranóica. Mas este caso é diferente do Iraque, porque de fato os iranianos possuem um programa nuclear, então fica difícil saber o quanto é paranóia e o quanto é informação verdadeira. Um ataque talvez até seja a melhor opção, se de fato vier a evitar uma guerra nuclear entre as duas nações. Mas, de qualquer forma, o governo israelense utiliza-se disso para contaminar toda sua sociedade. Mesmo que o perigo iraniano seja real, a postura israelense vai de encontro à conspiração.

JB: No Rio de Janeiro, nós temos muitos problemas com a criminalidade urbana e é muito comum ver, nos noticiários, expressões como “guerra” e “poder paralelo”. O senhor acredita que os governantes que comandaram o Rio de Janeiro ao longo das últimas décadas transformaram o tráfico em um inimigo?

Zoja: Eu não gosto disso, o uso da palavra guerra neste tipo de contexto já comprova, em si mesmo, um ato de paranóia evidente. Quando falamos em guerra, estamos transformando o outro no mal absoluto, com o qual não há espaço para diálogo.

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http://www.jb.com.br/internacional/noticias/2012/03/10/risco-do-fascismo-voltar-a-europa-e-muito-grande-afirma-psicanalista-italiano/